Resiliência socioecológica em primeira pessoa



Trabalhando como consultor muitas vezes me ocupei de criar condições para incrementar a resiliência socioecológica dos outros. O choque pandêmico foi a perturbação necessária para me fazer pensar na minha.

Resiliência é a capacidade de um sistema retornar a um determinado regime de funcionamento após uma determinada perturbação. Não significa necessariamente "resistir" à perturbação, mas sim recuperar o padrão de funcionamento anterior, após ter sido alterado. Quando a perturbação ultrapassa a resiliência, o sistema se desintegra ou assume um padrão de organização e funcionamento qualitativamente diferente. Um exemplo é o fogo como perturbação em um ecossistema de savana: a depender da intensidade e frequência dos incêndios, uma área queimada pode se recuperar e voltar a ter o padrão de algumas árvores e arbustos em meio a uma matriz diversa de gramíneas. Se o fogo for muito intenso e frequente, a área pode virar um campo sem árvores nem arbustos. Nesse caso, a resiliência do "padrão de funcionamento" arvores-arbustos-gramíneas diversas foi ultrapassada pela magnitude-frequencia da perturbação (fogo), e o sistema assume uma outra condição-padrão de funcionamento: um "campo pobre", com baixa diversidade de gramíneas e poucos ou nenhum arbusto ou árvore.

A resiliência socioecológica aplica-se a um sistema socioecológico: uma determinada população humana que, para viabilizar seus modos de vida, interage recorrentemente com um determinado conjunto de ecossistemas, em um determinado padrão de organização e funcionamento. Ou seja, para continuar sobrevivendo, uma pessoa ou comunidade humana precisa ter uma resiliência socioecológica suficiente para manter seus modos de vida após perturbações, que podem ser internas ou externas ao sistema em foco. A resiliência socioecológica é uma capacidade essencial para viabilizar a sustentabilidade, em seus vários níveis e escalas.

Diante da "meta-perturbação" representada pela atual pandemia, imagino que muitos de nós estejamos questionando a própria resiliência socioecológica. Ofereço aqui o que fui capaz de reunir.

Os principais elementos construtores de resiliência socioecológica são: a (i) diversidade de modos de vida; (ii) níveis suficientes de capital natural, material e financeiro; e (iii) um padrão "glocal" de conectividade-interatividade: o capital social.

Diversidade de modos de vida significa ter mais de uma (ou seja, várias) maneiras de viabilizar sua sobrevivência material. Mais de uma atividade profissional, diversos produtos, serviços ou clientes diferentes, disposição de mudar seu local de vida, padrões de consumo ou jeitos de viver são maneiras de aumentar a diversidade de modos de vida. A estratégia da alta especialização é especialmente interessante em contextos estáveis, mas arriscada em tempos de mudanças. Estar preparado, disposto e criativo para a mudança é essencial.

Capital natural são os elementos da natureza necessários à sobrevivência, de acordo com seus modos de vida. Podem ser os ecossistemas que você usa para produzir alimento (hortas, árvores frutíferas, roças, rios, lagos ou mares para cultivo ou pesca), água ou bem estar (árvores para estar embaixo, cachoeiras para banhar-se, o oceano para navegar). Capital financeiro é o dinheiro mesmo, ou algum outro tipo de bem com alto poder de intercâmbio. "Ecossistemicamente", é interessante que estes capitais estejam em fluxo, promovendo benefícios a muitos. Porém, em alguma medida, é importante tê-los também "estocados", para os inexoráveis imprevistos.  O que determina se os fluxos e estoques destes capitais são suficientes é o modo de vida, e nesse sentido, quando mais baixo o consumo, mais valor relativo tem um determinado volume destes capitais.

Os padrões de conectividade são o modo como viabilizamos nossas interações materiais (alimento, água) ou imateriais (conhecimento, amizades, interações profissionais). É valioso que as interações materiais sejam ao máximo possível locais, para evitar os custos e consequências associados aos deslocamentos materiais, assim como é importante ter boas ligações locais de confiança, amizade e parcerias. Mas estas não bastam, é também importante abrir-se às "novas águas" que podem vir de fora, e para isso não necessariamente é preciso deslocar-se. Amizades, conhecimento, parcerias e colaborações podem ser feitas à distância, eletronicamente. Os deslocamentos para longe, que a depender dos modos de vida e da natureza pessoal do indivíduo também são importantes, devem ser feitos com moderação, tempo e propósito, pois os custos financeiros e ambientais são altos, assim como os riscos associados a estes deslocamentos. Sinteticamente, estes equilíbrio entre conexões locais e globais, fortes e fracas, é referido aqui como um padrão de conectividade "glocal". Esse componente da conectividade-interação chama também a atenção que a construção da resiliência socioecológica não é individual, mas necessariamente comunitária. E talvez esse seja o maior desafio.

A pandemia me pegou sem nenhum contrato de trabalho, mas com estoques razoáveis de capital financeiro e natural. Roças plantadas em anos anteriores ainda tinham mandioca, inhame e bata doce embaixo da terra, muitos talos de cana, figos e bananas amadurecendo. Estar temporariamente restrito em uma área na transição do urbano com o rural e o florestal me proveu de algo que se provou de inestimável valor: espaço de céu e de sol, baixa densidade populacional, muitas estradas de terra e trilhas na floresta. Os contatos interpessoais passaram a se concentrar na família e em alguns encontros fortuitos pelas estradinhas do bairro com conhecidos de várias gerações. Alguns novos amigos, à distância. E alguns poucos, mas bons amigos distantes, os quais comecei a visitar devagar, e observando um protocolo sanitário estrito, transparente e consensualizado. Estou me virando bem. 

A jornada de construção de resiliência socioecológica pessoal não tem fim, pois se as condições mudam, as estratégias devem mudar. Em tempos de aceleradas mudanças e crises sobrepostas umas às outras, estar atento aos elementos construtores de resiliência e cuidar de mantê-los em níveis adequados pode ser tão valioso quanto uma gorda poupança. 


Comentários

  1. Olá Rafael! E entre os princípios gerais que governam a resiliência socioecológica pessoal/comunitária está uma atenção ao conceito de capacidade de suporte? Vejo que o conceito de resiliência transbordou da ecologia mas pouco se fala da capacidade de suporte tanto dos organismos como dos ecossistemas. Penso que o melhor uso do conceito de resiliência é quando acompanhado do conceito de capacidade de suporte.
    Bom saber que está bem e sempre pensando, investigando, refletindo.

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    1. Oi Vivianne ! Nos termos da literatura científica não conheço vínculo explícito do conceito de capacidade de suporte com a resiliência socioecológica. Mas o que nos interessa aqui acredito que seja a utilidade das ideias, mais do que tudo. Nesse caso, uma articulação possível pode se dar através do capital natural, que mencionei no texto: os fluxos de capital natural que contribuem para viabilidade de uma população humana (um outro conceito que poderia ser articulado aqui é o de serviços ecossistêmicos), para serem sustentáveis, precisam ser coerentes com o "estoque" de capital natural disponível para essa população, sem que comprometa a viabilidade de outras populações. Acho que esse raciocínio pode equivaler ao conceito de capacidade de suporte.
      Existem críticas ao conceito de capacidade de suporte em alguns campos da ecologia - gestão ambiental quando esse conceito é aplicado em caráter normativo (por exemplo, definir uma quantidade fixa de pessoas que podem usar determinada área ou a quantidade de peixes que pode ser pescada). Essa crítica justifica-se pelo caráter dinâmico dos ecossistemas e pela dificuldade em se definir a priori uma capacidade de suporte. Mas para mim isso não invalida o conceito e nem a sua utilidade. Por exemplo, nos casos de manejo da pesca de pirarucu na amazonia, que estudei no doutorado, uma quantidade de pirarucus a serem pescados em um sistema de lagos é definida anualmente, em função do estoque total. É uma solução prática para aplicar de forma dinâmica o conceito de capacidade de suporte.
      Acho pertinente sua ideia de aplicar de forma integrada a resiliencia e a capacidade de suporte. De certo modo a capacidade de suporte (com as ressalvas acima) definiria os limites biofísicos dentro dos quais o sistema em foco deveria operar, e dentro desses limites, os estoques e fluxos de capitais, a diversidade de modos de vida e os padrões de conectividade, entre outros elementos que não citei, construiriam a resiliência.
      Há muito a ser discutido. Nesse texto quis enfatizar o valor estratégico de conhecermos os elementos que promovem resiliência. Grato pela leitura e pelo estímulo à discussão Vivi, um grande abraço !

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