Em crise com a sustentabilidade
De cara com a crise
Após duas décadas dedicando-me profissionalmente à sustentabilidade e conservação da biodiversidade, a reclusão pandêmica me permitiu elaborar desconfortos que se acumulavam sub-repticiamente: me vi em crise com a sustentabilidade. O modo como estivemos lidando com o tema desde sua emergência global na década de 90 começou a me parecer profundamente equivocado e inadequado. Perdi a esperança e a vontade de trabalhar.
Atravessei o pântano da dúvida e acredito que hoje comecei a pensar a sustentabilidade fora da caixa. Mas nesse texto, o foco é a crise. A reorganização fica para o próximo.
Quanto ao "nós", me refiro principalmente aos "ambientalistas profissionais": consultores, técnicos, fundadores e colaboradores de ONGs, governos, departamentos de sustentabilidade das empresas, etc.. E quanto aos nossos equívocos, uma lista: paternalismo, economicismo, proselitismo, pouca criatividade, reprodução das piores patologias organizacionais de empresas e partidos, relações superficiais de causa e efeito e, talvez a pior de todas, a ação sempre em terceira pessoa: nós, os profissionais, estamos sempre tratando de sustentabilidade dos outros.
Mais criatividade por favor...
Os nomes das coisas as vezes mudam, mas há muito tempo estamos fazendo mais do mesmo. No campo dos projetos de conservação e desenvolvimento em áreas protegidas, o meu principal campo de atuação, se misturarmos uma listas de projetos aprovados em qualquer edital do ano 2000 com uma de 2020 não vamos conseguir saber qual é qual. Em educação ambiental, gestão de resíduos, energias alternativas, a mesma coisa. Periodicamente, novas palavras ("conceitos", "frameworks") são incorporadas ao léxico dos financiadores, e consequentemente por todos os executores. E a economia de promessas continua girando.
Em primeira pessoa ! Menos proselitismo e foco no público alvo relevante
Estamos sempre querendo convencer alguém a alguma coisa. E na maioria das vezes, estes a quem estamos querendo convencer são os que menor impacto ecológico produzem, pois consomem menos energia e bens materiais: os mais vulneráveis, eventualmente mais "pobres" e com menor acesso aos bens de consumo.
Esquecemos nossos próprios padrões de consumo e negligenciamenos que os maiores impactos ecológicos estão ocultos nos processos produtivos e distribuídos pelo ciclo de vida dos produtos. Ou seja, quanto mais "bem sucedido" você for, e quanto maior o seu padrão socioeconômico, mais impacto ecológico você causa, embora ele suma rápido da sua frente na lata de lixo ou turbina do avião.
Ou quer comparar as emissões de carbono, lixo produzido, energia gasta e pegada ecológica entre qualquer próspero cientista da sustentabilidade ou CEO de grande ONG com o do caboclo amazônico na periferia de Manaus cujo esgoto cai no rio, antes ou depois do saquinho de lixo cheio de embalagem plástica ? E a SUA pegada ecológica, está mais próxima do próspero cientista ou CEO de ONG ou do caboclo amazônico público alvo do seu projeto ? Os privilegiados que como eu podem escolher entre a eletricidade hidroelétrica pela fotovoltaica esquecem que o processo de produção dos painéis e baterias produz tanto ou mais poluentes e emissões de carbono do que a hidroelétrica. E quem de fato precisa ser "educado" para "não jogar lixo na rua" é o grande empresário e o capitalista especulador. Tem alguma coisa errada "nisso aí"...
Para além do dinheiro
Mesmo aqueles de nós que avançam em direção a soluções um pouco mais propositivas, ainda que principalmente focadas nos mais vulneráveis e pobres, insistem em promover o "desenvolvimento sustentável" nos mesmos moldes economicistas, focados na integração da produção em pequena escala destes mais vulneráveis para mercados monetarizados, em geral requerindo subsídios e grandes deslocamentos das mercadorias dos produtores até os consumidores. Insistimos em uma lógica mercadológica e monetarizada, que nos parece ser a única possível. E que, mesmo quando bem sucedida, depende de subsídios constantes, e traz impactos ecológicos e sociais consideráveis.
Vamos à fundo ?
Os nomes das coisas as vezes mudam, mas há muito tempo estamos fazendo mais do mesmo. No campo dos projetos de conservação e desenvolvimento em áreas protegidas, o meu principal campo de atuação, se misturarmos uma listas de projetos aprovados em qualquer edital do ano 2000 com uma de 2020 não vamos conseguir saber qual é qual. Em educação ambiental, gestão de resíduos, energias alternativas, a mesma coisa. Periodicamente, novas palavras ("conceitos", "frameworks") são incorporadas ao léxico dos financiadores, e consequentemente por todos os executores. E a economia de promessas continua girando.
Em primeira pessoa ! Menos proselitismo e foco no público alvo relevante
Estamos sempre querendo convencer alguém a alguma coisa. E na maioria das vezes, estes a quem estamos querendo convencer são os que menor impacto ecológico produzem, pois consomem menos energia e bens materiais: os mais vulneráveis, eventualmente mais "pobres" e com menor acesso aos bens de consumo.
Esquecemos nossos próprios padrões de consumo e negligenciamenos que os maiores impactos ecológicos estão ocultos nos processos produtivos e distribuídos pelo ciclo de vida dos produtos. Ou seja, quanto mais "bem sucedido" você for, e quanto maior o seu padrão socioeconômico, mais impacto ecológico você causa, embora ele suma rápido da sua frente na lata de lixo ou turbina do avião.
Ou quer comparar as emissões de carbono, lixo produzido, energia gasta e pegada ecológica entre qualquer próspero cientista da sustentabilidade ou CEO de grande ONG com o do caboclo amazônico na periferia de Manaus cujo esgoto cai no rio, antes ou depois do saquinho de lixo cheio de embalagem plástica ? E a SUA pegada ecológica, está mais próxima do próspero cientista ou CEO de ONG ou do caboclo amazônico público alvo do seu projeto ? Os privilegiados que como eu podem escolher entre a eletricidade hidroelétrica pela fotovoltaica esquecem que o processo de produção dos painéis e baterias produz tanto ou mais poluentes e emissões de carbono do que a hidroelétrica. E quem de fato precisa ser "educado" para "não jogar lixo na rua" é o grande empresário e o capitalista especulador. Tem alguma coisa errada "nisso aí"...
Para além do dinheiro
Mesmo aqueles de nós que avançam em direção a soluções um pouco mais propositivas, ainda que principalmente focadas nos mais vulneráveis e pobres, insistem em promover o "desenvolvimento sustentável" nos mesmos moldes economicistas, focados na integração da produção em pequena escala destes mais vulneráveis para mercados monetarizados, em geral requerindo subsídios e grandes deslocamentos das mercadorias dos produtores até os consumidores. Insistimos em uma lógica mercadológica e monetarizada, que nos parece ser a única possível. E que, mesmo quando bem sucedida, depende de subsídios constantes, e traz impactos ecológicos e sociais consideráveis.
Vamos à fundo ?
Sim, estive em crise, e não mencionei as exceções que confirmam a regra. Vai passar. Mas acho importante não deixar passar em branco. Essas reflexões me fizeram ficar calado, ainda que um pouco assustado. O que achei bom, pois tem me dado mais vontade de fazer do que de falar; de pensar em como posso viabilizar minha sobrevivência e convivência sem violentar ninguém e sem contar nenhuma mentira (e nenhuma meia-verdade). De tentar ampliar a percepção sobre de onde as coisas vêm e para onde vão. De estabelecer laços e fluxos, inclusive materiais, que sejam virtuosos e não sejam monetarizados. De ir afinando meus "sisteminhas" de alimento, água, energia; de tocar violino sem partitura, e de dançar sem música; de ficar parado sem pensar em nada; de pensar "fora da caixa". E em primeira pessoa.
Incômodo recíproco. Sobretudo por me ver, muitas vezes, preso ao mais do mesmo citado. A crise é diária, as exceções aliviam mas não resolvem. A potência de ação individual é restrita, mais ainda durante a pandemia. Ansioso pelas outras 11 segundas-feiras.
ResponderExcluirPois é camarada! Ainda bem que aos poucos os grilhões começam a coçar nossos tornozelos !
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