A estratégia nômade

Funciona para muita gente, há muito tempo. Será que pode funcionar para alguns de nós? Eu acredito que sim, ou pelo menos inspirar estratégias mistas. Li um pouco sobre nômades pastoralistas do oriente e nômades digitais contemporâneos, e compartilho aqui algo do que descobri sobre suas motivações e estratégias.



Móvel, sim. Errante, não.
Naturalmente, nomadismo tem a ver com mobilidade. Porém, isso não significa mover-se para qualquer lugar, e nem mover-se sempre para um lugar novo. Os deslocamentos tem sempre uma finalidade, e muitas vezes se dão ciclicamente, em territórios já conhecidos, interessantes por recursos específicos, dispersos no espaço e no tempo, ou por permitirem escapar de situações ambientais adversas. 

Motivações sutis
Mas as finalidades materiais não explicam sozinhas a opção por este modo de vida. Aspectos imateriais como liberdade, independência, curiosidade, e preferências culturais e políticas, são também perseguidas ao longo dos caminhos percorridos por estes grupos.

Como a propriedade não é permanente, o mundo nomádico é mais igualitário, e a única coisa que distingue uns dos outros é a estima que têm diante de seus pares. A amizade é o principal elemento de união ("cola"). As chefias, ou algum tipo de organização hierárquica, em geral emergem apenas em resposta a confrontos com populações externas poderosas. Existe uma tendência destes grupos serem politicamente centrífugos, ou seja, não reforçam o poder centralizado e hierárquico.

Interessa-lhes a independência. A estrutura de organização social assemelha-se mais a um rizoma (fluido, anastomosante, redundante) do que a uma árvore (hierárquico, estruturado). As redes de comunicação são distribuídas,  e os fluxos de informação livres.  

Orientam-se pela paz e pelo não-conflito.


O desafio da socialização
A comunidade é um bem precioso, e a busca por locais de socialização e pela preservação de laços de confiança e cooperação é fundamental, e um dos desafios permanentes.

Para a vida nômade, velocidade de deslocamento, conhecimento do território, habilidade de passar despercebido e um preciso timing de ação são habilidades essenciais e mais valiosos do que a força bruta.

Equilibrando os pratos
Entre pastoralistas e digitais, os principais desafios são similares: possuir o conjunto de ferramentas-chave e o local de utiliza-las (notebooks, cavalos), procurar os recursos (pastos, tomadas, conexão à internet) e integrar-se com outros (trocar informação, cooperar, acessar novidades, ser visto e lembrado).

Diante dos cenários de imprevisibilidade e riscos ambientais, que se confirmam e intensificam a cada dia, espero ter trazido inspiração para aqueles de nós que se identificam com as motivações da vida nômade. E, eventualmente, insights úteis para aqueles cuja personalidade demanda doses maiores de sedentarismo. 


Figura retirada de:

SU, Norman Makoto; MARK, Gloria. Designing for nomadic work. In: Proceedings of the 7th ACM
 conference on Designing interactive systems. 2008. p. 305-314.

Algumas referências:

[1] excertos de Philip Carl Salzman. Pastoralists: Equality, Hierarchy, and the State. . (Boulder, CO: Westview Press, 2004) sistematizados em https://scholars-stage.blogspot.com/2013/11/the-nomadic-survival-strategy-salzmans.html 

[2] The Seven Pillars of Wisdom (Lawrence, 1962) e Deleuze and Guattari A Thousand Plateaus. referidos em  MUNRO, Iain. Nomadic strategies in the network society: From Lawrence of Arabia to Linux. Scandinavian Journal of Management, v. 26, n. 2, p. 215-223, 2010.




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Resiliência socioecológica em primeira pessoa

Bioeconomia: bola da vez (ou de neve?) na economia de promessas?

Projetos funcionam ? Relato informal a partir da minha pesquisa formal