Ah, uma comunidade...



Pertencer ou participar de comunidades aparece muito nas conversas de quem está falando de sustentabilidade. Seja como estratégia de transição para um modo de vida sustentável e significativo,  para delinear uma pesquisa ou intervenção, como celebração e manutenção de uma cultura tradicional ou como ideal romântico. Compartilharei aqui algumas desilusões/visões que tive a respeito.

Um coletivo homogêneo e relativamente fechado, onde todos compartilham as mesmas crenças e comportamentos, onde não há conflitos, estável no tempo e no espaço, com fronteiras espaciais e pessoais claras, e relativamente isolada do meio externo. Uma comunidade  que funciona bem "por dentro", onde os membros são bem articulados entre si, e o coletivo autossuficiente. 

Esse parágrafo te fez suspirar ou bufar ? 

Quando examinamos os exemplos reais, seja em aldeias indígenas, povos tradicionais ou ecovillagers, nota-se que essas comunidades "totalizantes" não tem vida longa, tampouco próspera: além de romântica, essa visão é uma armadilha.  Vivemos, cada vez mais, em um mundo de sistemas abertos, onde o sucesso de um empreendimento coletivo não é mais medido pela homogeneidade, fechamento ou pela eficiência de processos internos, mas sim pelas aberturas e pontos de articulação com o meio externo. A mobilidade é uma realidade, e uma aspiração de muitos. As fronteiras geográficas não são mais determinantes. A diversidade entre os membros é frequente entre as comunidades reais bem sucedidas, e a tolerância entre todos idem. 

Para mim tem feito sentido a ideia de pertencer a diversas comunidades, que atendem a interesses específicos (por exemplo alimentação, conhecimento, habitação). Em torno destes interesses, permanentes ou temporários, converge parte da dedicação dos "membros". A diversidade conceitual reflete esta multiplicidade de finalidades: comunidades de prática, comunidades de projeto, comunidades tradicionais, comunidades intencionais, entre outras. É a pessoa multicomunitária, comunidades que se superpõe e se fertilizam, com fronteiras e mentalidades abertas. 

Uma outra armadilha que estou aprendendo a evitar é a expectativa de ser possível construir uma comunidade a priori, ou seja, antes da interação na situação de ação real, "combinando" regras, normas, condutas e estratégias antes de colocar a mão na massa. Essa expectativa ignora o fato dos próprios indivíduos não serem capazes de prever seus comportamentos quando imersos nas situações de ação, e também não leva em conta que o aprendizado coletivo só pode acontecer se as pessoas atravessam juntas as perturbações, munidas de um genuíno interesse em aprender, e portanto de transformar-se, a partir do que vivem e convivem. Melhor começar fazendo do que combinando. Se as coisas dão certo, o crescimento e aprofundamento é inevitável.  Se ainda não deu, pode ser que tenha acabado. 

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