Foco no que falta ou no que dá vida ?

 Quem trabalha ou vivencia processos participativos tá bem acostumado com a "árvore de problemas", o "muro das lamentações", "diagnóstico de fraquezas", etc. Em teoria, parece razoável: identificamos os problemas, as deficiências do sistema, o que falta, e planejamos como solucionar. Na prática, conhecemos os resultados... Por mais que as tarjetas e matrizes cheios e coloridos nos dêem a sensação de missão cumprida, na prática, na maioria das vezes, terminamos como começamos, ou pior: listas intermináveis de déficits, ações, responsáveis... frustração, paralisia, e cansaço...



A não ser que se disponha de muitos recursos, e máquinas para executá-los, a habitual estratégia de focalizar no déficit-resolução de problemas é arriscada. A minha experiência profissional e pessoal me mostram que vale muito a pena considerarmos estratégias e métodos focados no que dá vida ao grupo, comunidade ou coletivo (potenciais, forças, qualidades, processos que funcionam).

Os porquês:

(i) ações coletivas ou mudanças de qualquer tipo requerem uma quantidade grande de energia e engajamento que apenas é possível se forem mobilizados afetos favoráveis (esperança, entusiasmo, empatia) e estabelecidas fortes ligações interpessoais. Essas condições são mais facilmente satisfeitas se trabalharmos no "positivo";

(ii) os sistemas humanos (organizações, grupos, comunidades) se movem em direção à uma visão de futuro - se a visão é negativa, não há entusiasmo para o engajamento ("as plantas crescem em direção ao sol..." "tendemos a ter mais do que mais prestamos atenção..."..;

(iii) o foco no positivo é mais generativo (contribui para encontrar questões fundamentais, inovações, articulações, soluções alternativas);

(iv) o foco no positivo estimula a auto-organização, enquanto o foco na resolução de problemas demanda planejamento, controle e supervisão - a improvisação gera mais resultados, e mais rápido, do que a "implementação".

Pontos de atenção: narrativas relacionadas a déficits e problemas (negativas) podem surgir na conversa, e uma intervenção do moderador para manter o foco no positivo seria um "balde de água fria" neste momento. Uma saída possível seria identificar qual a qualidade do grupo relacionada ao suprimento da necessidade identificada; e como incrementa-la. No caso de grupos já consolidados, o foco continuado no "positivo" ao longo de diversos ciclos de trabalho irá "cansar o grupo".

Faz sentido ?

Para aprofundar, sugiro os trabalhos de Cooperider, Whitney, Isen, Gergen e outros, sobre abordagens generativas e investigação apreciativa. Até breve, e sucesso nas transformações.

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