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Bioeconomia: bola da vez (ou de neve?) na economia de promessas?

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 Já há muitas décadas que nossa imaginação é colonizada pelo crescimento econômico e pela mão (bem visível) do mercado como solução para as crises sociais e ecológicas. Sem nenhum sucesso. No campo da sustentabilidade e conservação da biodiversidade estes entes também são há muito exaltados. Outras entidades também vagam nestas constelações de utopias: biotecnologias, mercado de carbono, pagamento por serviços ambientais, negócios de impacto, ESG. Em um movimento paralelo, mas surpreendentemente convergente, as terras prometidas se encontram na bola da vez no feirão da economia de promessas: A bioeconomia ! O pano de fundo da encenação, além da reiteração do mercado e do crescimento econômico como a pedra filosofal, é o estímulo ao "empreendedorismo", que vem de todos os lados. Como manifestação do processo vigente de dissolução das responsabilidades do Estado por seus cidadãos e patrimônio socioecológico. Outra manifestação clara é a revoada de programas de aceleração de sta...

Foco no que falta ou no que dá vida ?

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  Quem trabalha ou vivencia processos participativos tá bem acostumado com a "árvore de problemas", o "muro das lamentações", "diagnóstico de fraquezas", etc. Em teoria, parece razoável: identificamos os problemas, as deficiências do sistema, o que falta, e planejamos como solucionar. Na prática, conhecemos os resultados... Por mais que as tarjetas e matrizes cheios e coloridos nos dêem a sensação de missão cumprida, na prática, na maioria das vezes, terminamos como começamos, ou pior: listas intermináveis de déficits, ações, responsáveis... frustração, paralisia, e cansaço... A não ser que se disponha de muitos recursos, e máquinas para executá-los, a habitual estratégia de focalizar no déficit-resolução de problemas é arriscada. A minha experiência profissional e pessoal me mostram que vale muito a pena considerarmos estratégias e métodos focados no que dá vida ao grupo, comunidade ou coletivo (potenciais, forças, qualidades, processos que funcionam). Os...

Projetos funcionam ? Relato informal a partir da minha pesquisa formal

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  Pesquisei os projetos que visam promover a conservação por meio do engajamento das populações locais em atividades de produção e comercialização de bens ou serviços ligados à biodiversidade (manejo pesqueiro ou madeireiro, turismo de natureza, artesanato, entre outros), que na maioria das vezes são promovidos por organizações do terceiro setor a partir de recursos de doadores externos. Para coletar os dados estive por mais de 200 dias em campo no Médio Solimões - AM e no Norte Rupununi - Guiana, e fiz uma revisão sistemática de 25 projetos distribuídos entre os trópicos, nos 5 continentes. Tudo isso resultou no meu Doutorado, e, naturalmente, em uma Tese. Figura : Projetos de Conservação e Desenvolvimento no mundo, nomeados pela Iniciativa Equatorial (EI) e incluídos na pesquisa (WRL) Por ora, não vou tratar da teoria envolvida, nem das implicações para o conhecimento científico ou recomendações, mas apenas apresentar uma parte dos resultados, e de maneira simplificada. Sim, as v...

Módulos sociais de sobrevivência pela convivência

Tive a alegria de empreender um ciclo de conversas entre amigos. Sobre sustentabilidade, mas em primeira pessoa. Compartilho aqui um pouco da jornada. Conversamos bastante. Umas cinco sessões e muitos de nós participaram. Nos propusemos a falar em primeira pessoa, os contextos situacionais de cada um, bem como seus desafios e aspirações foram trazidos à roda; Muito das conversas oscilou entre dois pólos: as necessidades mais prementes de cada um x ideias ambiciosas à médio e longo prazo. Não nos dedicamos muito ao meio termo, ou seja, um espaço criativo de cenários de futuros possíveis, atingíveis e desejáveis, de acordo com o contexto e trajetória de cada um e de todos. Mas tocamos superficialmente em temas e nuances que ajudaram a delinear alguns princípios e características do que podem vir a ser módulos sociais de sobrevivência e convivência. Alguns desses princípios já estão no texto do grupo sobre o tema, mas não mexemos neles; Ficou evidente o valor do patrimônio coletivo que re...

Sobre o nexo Democracia-Ambientalismo

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Que bom que temos conversado sobre democracia, ainda que motivados por responder às insistentes tentativas de erodi-la. Desta vez o meu convite é trazer essa conversa para o meio onde tenho circulado: o ambientalismo. Sobre desempenho ambiental de países democráticos Países democráticos tem melhor desempenho ambiental (indicadores emissões de carbono e poluição da água). O fator "eficiência" de governo seria uma variável intermediária no processo (governos autocráticos com alta capacidade de implementação, poderiam executar grandes obras infra-estruturais (e.g. plantas de tratamento de esgotos, grandes mudanças na base energética) que são apenas cosméticas e confundem o observador desatento. Quanto aos democráticos, o maior pluralismo, ativismo da sociedade civil, instituições mais fortes, menor corrupção e maior confiança no processo eleitoral tornam as sociedades democráticas mais abertas às demandas populares pela provisão de bens públicos. Uma crítica comum (ex-ante) à ca...

Ah, uma comunidade...

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Pertencer ou participar de comunidades aparece muito nas conversas de quem está falando de sustentabilidade. Seja como estratégia de transição para um modo de vida sustentável e significativo,  para delinear uma pesquisa ou intervenção, como celebração e manutenção de uma cultura tradicional ou como ideal romântico. Compartilharei aqui algumas desilusões/visões que tive a respeito. Um coletivo homogêneo e relativamente fechado, onde todos compartilham as mesmas crenças e comportamentos, onde não há conflitos, estável no tempo e no espaço, com fronteiras espaciais e pessoais claras, e relativamente isolada do meio externo. Uma comunidade  que funciona bem "por dentro", onde os membros são bem articulados entre si, e o coletivo autossuficiente.  Esse parágrafo te fez suspirar ou bufar ?  Quando examinamos os exemplos reais, seja em aldeias indígenas, povos tradicionais ou ecovillagers , nota-se que essas comunidades "totalizantes" não tem vida longa, tampouco prósp...

A estratégia nômade

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Funciona para muita gente, há muito tempo. Será que pode funcionar para alguns de nós? Eu acredito que sim, ou pelo menos inspirar estratégias mistas. Li um pouco sobre nômades pastoralistas do oriente e nômades digitais contemporâneos, e compartilho aqui algo do que descobri sobre suas motivações e estratégias. Móvel, sim. Errante, não. Naturalmente, nomadismo tem a ver com mobilidade. Porém, isso não significa mover-se para qualquer lugar, e nem mover-se sempre para um lugar novo. Os deslocamentos tem sempre uma finalidade, e muitas vezes se dão ciclicamente, em territórios já conhecidos, interessantes por recursos específicos, dispersos no espaço e no tempo, ou por permitirem escapar de situações ambientais adversas.  Motivações sutis Mas as finalidades materiais não explicam sozinhas a opção por este modo de vida. Aspectos imateriais como liberdade, independência, curiosidade, e preferências culturais e políticas, são também perseguidas ao longo dos caminhos per...

Resiliência socioecológica em primeira pessoa

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Trabalhando como consultor muitas vezes me ocupei de criar condições para incrementar a resiliência socioecológica dos outros. O choque pandêmico foi a perturbação necessária para me fazer pensar na minha. Resiliência é a capacidade de um sistema retornar a um determinado regime de funcionamento após uma determinada perturbação. Não significa necessariamente "resistir" à perturbação, mas sim recuperar o padrão de funcionamento anterior, após ter sido alterado. Quando a perturbação ultrapassa a resiliência, o sistema se desintegra ou assume um padrão de organização e funcionamento qualitativamente diferente. Um exemplo é o fogo como perturbação em um ecossistema de savana: a depender da intensidade e frequência dos incêndios, uma área queimada pode se recuperar e voltar a ter o padrão de algumas árvores e arbustos em meio a uma matriz diversa de gramíneas. Se o fogo for muito intenso e frequente, a área pode virar um campo sem árvores nem arbustos. Nesse caso, a resiliên...

Em crise com a sustentabilidade

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De cara com a crise Após duas décadas dedicando-me profissionalmente à sustentabilidade e conservação da biodiversidade, a reclusão pandêmica me permitiu elaborar desconfortos que se acumulavam sub-repticiamente: me vi em crise com a sustentabilidade. O modo como estivemos lidando com o tema desde sua emergência global na década de 90 começou a me parecer profundamente equivocado e inadequado. Perdi a esperança e a vontade de trabalhar.  Atravessei o pântano da dúvida e acredito que hoje comecei a pensar a sustentabilidade fora da caixa. Mas nesse texto, o foco é a crise. A reorganização fica para o próximo.  Quanto ao "nós", me refiro principalmente aos "ambientalistas profissionais": consultores, técnicos, fundadores e colaboradores de ONGs, governos, departamentos de sustentabilidade das empresas, etc.. E quanto aos nossos equívocos, uma lista: paternalismo, economicismo, proselitismo, pouca criatividade, reprodução das piores patologias organizacionais de emp...